A Travessia do Amolar

Postado dia 21 / 10 / 2021
por umgrauemeio

Na montanha existe o silêncio.

Sem notificações, sem e-mails. Apenas os pensamentos e a necessidade de sobreviver. Água, abrigo, comida. Preservar a vida, cuidar dos amigos. Com os desejos resumidos ao mínimo resgatamos a nossa própria humanidade. Lembramos o que é ser gente. Deixamos de ser meros componentes de uma máquina e passamos a entender que a vida é muito mais simples do que nossos pequenos desejos e vontades. Ao resgatar a humanidade lembramos do nosso lugar em comunhão inseparável com a Terra.

Osmar bambini

O Amolar.

A Serra do Amolar fica no coração do Pantanal, 250 km ao norte, saindo de Corumbá, na divisa entre o Brasil e a Bolívia. Suas encostas, colinas e vales dividem-se entre escarpas e ravinas formadas na mesma era geológica dos Andes.

Seus picos mais altos chegam a 1.120 metros de altitude e avançam rumo ao céu de maneira abrupta. Estes picos observam a planície alagada se perder no horizonte ao longo do vasto e majestoso rio Paraguai.  

As florestas do entorno da serra do Amolar, são formadas por uma biodiversidade singular e abrigam a maior população de onças pintadas do Brasil.

Durante 4 dias e 3 noites cruzamos 45 km da Serra do Amolar na Expedição Pantanal Selvagem organizada pelo amigo e mestre Caco Fonseca com apoio e suporte logístico do IHP em Corumbá. A experiência ainda fresca na memória e nas pequenas escoriações da pele trazem a lembrança de um território inóspito, misterioso e desconhecido pela maioria dos brasileiros que imaginam o Pantanal apenas feito de rios, lagoas e alagados.

Abrace o Pantanal.

Final do ano passado junto com o presidente da reserva da biosfera do Pantanal, Laércio Souza, iniciamos uma série de estudos com objetivo de identificar zonas de risco de incêndio e criar um sistema de proteção para as áreas mais afetadas pelos incêndios de 2020 na região do Pantanal.  

Mapeamos as áreas de risco, áreas que precisavam ser protegidas prioritariamente e as comunidades e brigadistas que poderiam ser beneficiados no processo. Foi quando conhecemos Liége Correa, diretora de Sustentabilidade da JBS, uma aliada de peso que tornou possível o Abrace o Pantanal. Na primeira fase o projeto irá cobrir 2.500.000 de hectares e terá 11 torres de detecção precoce trazerem 3 centrais integradas de gestão, uma delas é a Rede Amolar dentro do IHP. O objetivo é ampliar a cobertura, em 2022 para o total estimado de 28 torres e triplicar. a cobertura do sistema de detecção precoce. (vide mapa)

Missão IHP – 6 de outubro

Chegamos cedo em Corumbá no dia 6 de novembro, Alexandre Socci, Thiago Ribeiro e eu. O Ale como diretor de fotografia extrema, premiado pela National Geographic, Thiago e eu com andarilhos-e-assistentes-aprendizes-de-produção-cameraman. Encontramos Laércio e Coronel Rabelo e seguimos para o IHP – instituto homem pantaneiro. O coronel Rabelo é defensor da natureza pantaneira a mais de 30 anos.

Durante os anos 80 em uma patrulha contra caçadores de couro de jacaré teve um companheiro de patrulha assassinado e foi alvejado no ombro por um tiro que quase levou sua vida. Resgatado e salvo por um Pantaneiro, fundou o IHP e trabalha para trazer luz a para essa cultura tão brasileira e ao mesmo tempo tão desconhecida do brasileiro e a proteção da Rede Amolar.

O prédio do IHP fica no centro histórico de Corumbá, centro marcado por uma época de grande influência europeia pela busca de peles e penas de animais para abastecer o velho mundo. Dentro de suas dependências, história e arte e um time aguerrido que trabalha, incansavelmente, pela proteção do bioma Pantanal.

Isabelle, Letícia, Josiel, Bruno (Prevfogo) e outros que dedicam suas vidas pela preservação do Pantanal e assistiram os incêndios de 2020 destruírem o trabalho de mais de 30 anos de conservação na Serra do Amolar. Nossa jornada de aprendizado havia começado e o Pantanal começava a entrar em nossas peles.

Rumo ao Amolar – 7 de outubro

No caminho paramos na Fazenda Jatobazinho que abriga um projeto socioambiental patrocinado pelo Grupo Itaú e abriga 90 crianças.

Esta fazenda modelo será o local onde teremos uma das câmeras que irão monitorar focos de incêndio na região. Este ano, infelizmente, a região também foi afetada pelo fogo e caso a comunidade local não tivesse se preparado e preparado o terreno contra o fogo, o dano teria sido bem maior.

Chegamos ao entardecer na Pousada Amolar e encontramos o Adriano, sua família, e seu sobrinho Otávio. Os dois seriam os guias do nosso grupo durante a travessia. Hora de organizar as mochilas, equipamentos, fazer uma bela refeição, pedir proteção, dormir e estar preparado para o que os próximos dias teriam para oferecer e deixar de uma vez por todas a civilização para traz.

 Começa a Travessia. Dia 8 de outubro

Saímos em um grupo de 15 pessoas, da Pousada do Amolar, por volta das 7:00 da manhã. Durante o primeiro dia a previsão era caminharmos 14 km. Destes 14 Km, 9 Km seriam planos em trilhas batidas até a base da primeira escalada íngreme que nos levaria ao primeiro acampamento a 600 metros de altitude.

Enfrentando uma temperatura próxima dos 40 graus, partimos carregados com tudo que precisaríamos no decorrer dos 4 dias que seguiriam, comidas; roupas extras; barracas; primeiros socorros e pelo menos 6 litros d’água. Iriámos abastecendo nossos repositórios conforme passássemos pelos pontos de nascente previstos.

Carregamos uma média de 25 e 30 kg em nossas mochilas durante os quatro dias. Caminhávamos, no primeiro dia, ao redor e dentro do um leito de ribeirão, totalmente seco, que em épocas normais tem água cristalina que corre na altura da cintura. Caminhar por este rio seco assistindo suas pedras expostas e a mata ciliar queimada por quilômetros adentro do vale foi marcante. Logo nossas roupas estavam sujas pela fuligem dos tocos de vegetação queimados pelos incêndios de 2020.

Apesar desse cenário a vida já retomava forma e ia brotando em pequenos arbustos verdes, grandes Mangueiras, Jatobás e Copaíbas. O rastro da fauna, as pegadas de onça e duas araras vermelhas que nos seguiram gritando por praticamente todo o vale durante todos os dias. O calor passava a cobrar o seu preço e chegamos na parte da escalada por volta do meio-dia quando o esforço começou a minar a energia de alguns integrantes do nosso grupo logo na metade da primeira subida. A falta d’água para reposição na base da montanha começava a desenhar o que viria pela frente pelos próximos dias.  

Chegamos no primeiro acampamento após aproximadamente 12 horas de caminhada e algumas paradas para recompor e recuperar o grupo e encontrar água, o que aconteceu quase no topo, próximo ao primeiro acampamento.

O Portal do Amolar. Dia 9 de outubro

O segundo dia viria para mudar a história da expedição. Logo que saímos um dos integrantes mostrou que não teria condições de seguir e o Caco organizou seu retorno para a base da Pousada Amolar.  Adriano e Otavio, os guias locais, seguiram com o integrante e ativaram o resgate do IHP na base da serra. O grupo agora em 12 pessoas seguiu adiante por mais duas horas.

Neste momento, já próximo do meio-dia, estávamos ainda com o moral abalado pelo resgate do primeiro integrante quando outros três integrantes começaram também a apresentar sinais de exaustão, desidratação e, como dizemos na montanha, quebrar mentalmente.

Ali seria tomada outra decisão dura e no final do segundo dia quatro pessoas do grupo voltaram para o primeiro acampamento acompanhadas do Capovila, que cuida de toda rede de comunicações da Rede Amolar e conhece o território muito bem. A ideia seria levá-los de volta para a Pousada Amolar na manhã do terceiro dia.  No final do segundo dia dos 15 integrantes, estávamos em apenas 6 integrantes.

O plano seria reconectar com os guias em algum ponto da montanha, no segundo ou no terceiro acampamento, veríamos. Segundo o Coronel Rabelo o Amolar tem um portal. Não tenho dúvidas que O Portal do Amolar havia sido ativado.

Neste dia, para tirar o atraso, entramos a noite caminhando por outro vale por outro leito de rio seco para acampar em uma superfície arenosa dentro deste rio. Como já era noite não conseguimos encontrar água e fomos dormir sem hidratar o suficiente.

As duas da manhã, acordei de sobressalto no meio de um pesadelo onde com um martelo eu perseguia a bruxa do norte (cara verde, nariz pontudo) que havia aprisionado e iria devorar o meu filho.

Mal acordei no meio da martelada na bruxa e escuto o Djalma, ortopedista e corredor de aventura de longa data esbravejar, xingar e bater em sua barraca.  Nesta área do vale, no rio seco, havia barbeiros então tomamos muito cuidado para proteger nossas barracas e não deixar que entrassem, pois barbeiros picam quando dormimos. Porém por sorte, relativa, não eram barbeiros, mas sim umas 200 formigas cortadeiras que devoravam a barraca e o Djalma junto.

Levantamos assustados. Caco e Erico foram buscar água e acharam! Gustavo, Vivi, Thiago, Alexandre e eu ficamos junto com Djalma levantando acampamento limpando os equipamentos para ver se não carregávamos formigas ou barbeiros. Resolvemos partir para o terceiro dia logo as três da manhã. Seria uma caminhada longa até o pico com a maior variação de altitude até então. Saímos com menos água do que precisávamos e isso seria um fator crítico lá adiante.

Bebendo Água da Chuva. Dia 10 de outubro

Caminhamos bem até por volta do meio-dia quando nossa água começava a acabar. No Vale batizado pelos locais de Vale do Choro, Caco bateu atrás de água por duas horas e não encontrou. Estávamos zerando de água e Thiago começava a mostrar sinais de desidratação e muitas dores abdominais.

E neste ponto não havia resgate possível, viável e a única saída seria subir para poder descer.

Pancadas de chuva começaram a ameaçar o horizonte e logo em nossas cabeças. Com grandes sacos de lixo que levamos para nos proteger de eventuais enxames de abelhas e vespas captamos água em nossas garrafinhas. Porém ainda assim o time seguia sobrevivendo com pouca água.

O Thiago, além do limite da dor, seguiu subindo rumo aos 1.120 metros do topo do Amolar. Chegamos na base do morro do topo próximo ao anoitecer, sem água e com uma tempestade de raios que colocaria em risco a nossa travessia pelo topo para acessar o Vale que certamente encontraríamos água.

Então outro milagre aconteceu. Na base do Vale víamos, com se fosse miragem Adriano e Otávio, os guias que finalmente nos alcançavam gritando de alegria e sabiam onde buscar água do lado “de cá” da montanha. Nos abrigamos da tempestade em nossas barracas e pela primeira vez tive um sono longo e profundo.

Meditando depois notei que, ao sermos expulsos pelas formigas e pesadelos do acampamento 2, conseguimos evitar uma grande parte da caminhada em momentos mais quentes do dia e percebi que todo problema da noite anterior nos ajudou a atravessar trechos críticos em momentos mais amenos. Ao pensar que a floresta nos batia, percebi que na verdade ela nos protegia. Milagres do Amolar.

Rumo ao Acurizal. Dia 11 de outubro

Acordamos com uma chuva que pela primeira vez trouxe um pouco de frio me cobri como grande saco de lixo das abelhas esperando os guias que foram buscar água.

Recarregamos nossos reservatórios e tínhamos fé que o pior havia passado e após uma subida curta até o topo e uma descida longa e técnica até o vale chegaríamosa na região do Acurizal ponto final da travessia.  O Thiago, no entanto, continuava mal e não apresentava melhora e só, por ser muito forte, foi capaz de seguir.

Chegamos no topo e passamos por um dos pontos onde iremos instalar uma de nossas torres. Certamente o ponto mais distante e inóspito da história da umgrauemeio.

A descida até o primeiro vale foi tranquila e encontramos pela primeira vez uma área realmentemacia, com capim, água e que não havia sido afetada pelos incêndios de 2020. Porém como tudo só acaba quando termina….Após a subida do último vale descemos por uma garganta de encosta muito íngreme, cheia de grandes pedras soltas que caiam morro abaixo.

Cada passo, cada local que colocávamos as mãos poderia ruir e levar o morro abaixo. Foi um momento muito técnico e perigoso que com muita calma conseguimos cruzar.

Faltava cruzar 1 km de floresta do vale para chegar na estrada onde encontraríamos o apoio. Pois bem, essa floresta, afetada pelos incêndios de 2020 estava com grande parte de suas trilhas fechadas por mato e bambus que fizeram do vara mato uma experiência de quase parto. Por mais de uma hora andamos, em zig-zag, fugindo de partes mais sujas por arbustos nos enroscando em galhos, espinhos e cipós. Ao sair na estrada, já de noite, e ver a luz do caminhão que chegava com bebidas geladas, nossa alegria e celebração não cabia no peito.

O Ale Socci nos esperava muito feliz, mas tão feliz que até caiu pra fora do caminhão de madeira (ainda bem que na areia fofa) em um solavanco e não percebemos, sendo notado apenas pela luz da sua câmera e gritos no meio da florestas, abafados pelo barulho do caminhão, não foi dessa vez também nem quando tentamos deixar ele de comida para as onças.

A Travessia Humana

A travessia da Serra Amolar, além de um aprendizado profundo em vários sentidos, representava, para nós, a travessia humana pela crise do clima e como poderíamos, em um esforço colaborativo, transcender as barreiras e os obstáculos para chegar ao destino da resiliência e sobrevivência civilizatória.  

As lições são simples e profundas em expedições de aventura desse calibre e mudam a vida de quem passa por elas, seja completando, seja pelo aprendizado da desistência. A simbologia de tudo que aconteceu, os aprendizados e muito do que experimentamos nos fez recuperar a própria humanidade. Sem notificações no celular, sem acesso as notícias. Procurando por água, abrigo e estar vivos, protegendo quem precisava de proteção e sermos protegidos por algo muito maior que podíamos compreender. A louca sabedoria, quem sabe.

Tenho certeza de que irei carregar pelo resto da vida o que vi e aprendi e o coração pantaneiro fica forte dentro de mim.

Agradeço meus companheiros de travessia pelo esforço coletivo e aprendizados compartilhados. Caco, líder da expedição, Adriano, Otavio, Capovila, Ale (meu querido amigo artista, Alexandre, Vivi, Erico, Thais, Thiago, Rodrigo, José, Djalma, Gustavo, Vera, em especial ao Thiago meu irmão, amigo e professor e que no dia seguinte, após sua chegada em SP, operou o apêndice. Três dias com o apêndice em processo inflamatório naquela Serra não é para qualquer um.

Agradeço imensamente todo time do IHP em especial a Isabelle que cuidou da nossa logística e ao coronel Rabelo, por ter compartilhado conosco parte de sua imensa sabedoria. O Laércio, amigo querido, que nos ajuda de maneira incondicional na construção do Abrace o Pantanal. Agradeço também ao Adriano e Otávio que, como “sherpas” Pantaneiros, cuidaram dos integrantes da expedição com impecabilidade

Podem contar pelo resto da vida com esse “aprendiz-de-ajudante-de-guardião-do-Amolar. Agradeço a Aretha, a Daniella pelo suporte, sem vocês tudo teria sido muito mais difícil e agradeço a confiança de todo time umgrauemeio e a oportunidade de representar todos vocês nessa travessia e a JBS que nos ajudou e ajuda a construir esse sonho

Seguimos com o Pantanal na pele, com mais vontade de proteger para preservar.

Osmar Bambini
CIO & co-founder

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